A primeira chuva de outono chega quase sempre de noite. De manhã, a calçada está escura e brilhante, o ar cheira a terra molhada e a pedra fria. Ainda há luz morna ao meio-dia, mas os passeios já pedem outro calçado.
Nas próximas semanas o tempo vai mudar sem aviso. Aguaceiros curtos ao início da manhã, sol de lado à hora de almoço, vento fresco quando a tarde cai. Vestir para isto pede peças que aguentem o dia inteiro, sem trocar de roupa entre o escritório e o jantar.
Primeiro, os pés
As botas Martin impermeáveis têm a pele tratada para a água e uma sola de relevo firme, que agarra bem a calçada portuguesa quando está molhada, o que em outubro acontece quase todos os dias. O cano cobre o tornozelo e protege as meias dos salpicos junto ao passeio. Com o uso, a pele ganha vincos próprios e escurece ligeiramente nos pontos de dobra. É o tipo de bota que fica melhor ao segundo inverno do que no primeiro dia.
Calças que secam depressa
Sobre as botas, calças de alfaiataria em algodão, de corte direito. A bainha deve pousar sobre o cano sem fazer pregas, ou ficar um dedo acima, deixando ver a pele. O algodão seca depressa se apanhar um aguaceiro a caminho do carro e mantém o vinco com um passar de ferro rápido ao domingo à noite. Em cinzento ou caqui, fazem a ponte entre a robustez da bota e uma camisola mais cuidada.
Ver calças de alfaiataria em algodão
Malha escura por cima
A camisola em malha azul-marinho é uma escolha discreta para estes dias. O tom escuro não marca a humidade e acompanha bem a pele castanha ou preta das botas. De manhã, usa-se sozinha, com uma t-shirt branca a espreitar na gola. Ao fim da tarde, recebe uma gabardina por cima sem ganhar volume nos ombros. A malha é fina o suficiente para não aquecer demasiado dentro de um restaurante.
Uma terça-feira de outubro
Oito e meia da manhã, céu baixo sobre o rio. Botas, calças de algodão cinzento, camisola azul-marinho, gabardina bege dobrada no braço. Ao almoço o sol abre e a gabardina fica na cadeira. À saída, a chuva volta, fina, e as botas continuam secas por dentro. Nada precisou de ser trocado.
Depois de um dia de chuva, as botas secam longe do aquecedor, com papel de jornal amarrotado lá dentro. Uma vez por mês, um pouco de creme neutro na pele. A camisola dobra-se na gaveta e nunca vai para o cabide, para não perder a forma dos ombros.
Em meados de outubro a chuva passa a ser rotina e os passeios secam mais devagar. A calçada continua a brilhar de manhã. Por essa altura, as botas já terão os primeiros vincos, e a pele já conhece o caminho de casa.